No domingo eu fui ao cinema ver o novo filme do Christopher Nolan, A Odisseia, exatamente do jeito que ele disse que era para ver: no IMAX. Aqui em Porto Alegre só existe uma sala IMAX, a do Bourbon Wallig, e é para lá que se vai quando o diretor faz questão do formato.
Saí da sessão com aquela sensação física que só o Nolan entrega: duas horas e meia com o corpo em tensão, sem saber exatamente por quê. E a resposta, como quase sempre no cinema dele, não está apenas na tela. Está no ouvido.
A escada que nunca termina
Existe uma ilusão sonora chamada Shepard tone, descrita pelo psicólogo Roger Shepard nos anos 1960, nos laboratórios da Bell. É o equivalente auditivo daquela escada de Escher que sobe para sempre e não chega a lugar algum.
O truque é elegante: várias camadas do mesmo som tocam ao mesmo tempo, separadas por oitavas. Todas sobem juntas, mas as camadas mais agudas vão desaparecendo aos poucos, enquanto novas camadas graves entram por baixo, quase inaudíveis. O cérebro costura tudo numa única voz e percebe uma subida infinita: o som parece subir o tempo todo, sem nunca chegar ao topo.
Ouça a escada infinita
Aperte subir e deixe tocar por um tempo. A sensação é de que o som não para de subir. Ele está, na verdade, andando em círculos. Use fones e volume moderado.
Glissando de Shepard-Risset gerado em tempo real no seu navegador: oito camadas senoidais separadas por oitavas, com o volume de cada camada seguindo uma curva de cosseno que nasce e morre em silêncio nas pontas. As bolinhas mostram cada camada subindo e voltando por baixo.
Nolan e a tensão que só termina quando ele quiser
O Shepard tone é uma assinatura sonora do cinema do Nolan, construída junto com seus compositores e sound designers:
- Dunkirk (2017): o exemplo definitivo. A trilha de Hans Zimmer usa o Shepard tone quase do início ao fim, somado ao tique-taque de um relógio. O próprio Nolan contou que escreveu o roteiro seguindo esse princípio: três linhas de tempo entrelaçadas que dão a sensação de intensidade sempre crescente, uma espiral narrativa calcada na ilusão sonora.
- Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008): o som da Batpod foi desenhado sobre um Shepard tone. Resultado: a moto do Batman parece acelerar continuamente, sem nunca trocar de marcha.
- O Grande Truque (2006): Nolan já declarou que a estrutura do filme persegue o mesmo efeito, a sensação de ascensão contínua, de algo sempre prestes a se revelar.
Fora do universo Nolan, o efeito aparece na aceleração sem fim de perseguições e cenas de pânico em vários blockbusters e até em videogames: a escada infinita do Super Mario 64 usa exatamente essa ilusão para parecer não ter fim.
A Odisseia: preciosismo levado ao bronze
O que me levou ao IMAX no domingo também rende um capítulo à parte sobre obsessão sonora. Para A Odisseia, Nolan proibiu o caminho fácil: nada de orquestra tradicional. Ele pediu ao compositor Ludwig Göransson que construísse o mundo musical do filme a partir dos sons que aquela história poderia ter escutado.
Göransson foi atrás de dois instrumentos que o próprio Nolan apontou: o aulos, aquela flauta dupla de palheta da Grécia antiga, e a lira. O detalhe é que parte desses instrumentos simplesmente não existia mais: as palhetas originais do aulos se perderam no tempo. A equipe, com os músicos e pesquisadores Callum Armstrong e Rosa Fragorapti, reconstruiu réplicas funcionais cruzando iconografia, fontes escritas e imagens de vasos antigos. Instrumentos que estavam mudos há séculos voltaram a soar, para um filme.
E não pararam aí: a trilha usa 35 gongos de bronze, pedaços de sucata de metal, até a carcaça de um ar-condicionado, tudo somado a sintetizadores analógicos e camadas da voz do cantor James Blake. O resultado não tenta ser uma reconstituição literal da música grega antiga; é um mundo sonoro da Idade do Bronze filtrado por design de som moderno.
Outras ilusões que o seu ouvido adora
O Shepard tone é a mais cinematográfica, mas o sistema auditivo se deixa enganar de várias formas, e cada uma delas ensina algo sobre como percebemos o mundo:
- Ritmo de Risset: a versão rítmica da escada infinita. Uma batida que parece acelerar (ou desacelerar) para sempre, sem nunca mudar de andamento de verdade.
- Paradoxo do trítono: dois tons tocados em sequência que metade das pessoas ouve subindo e a outra metade ouve descendo. A direção que você percebe depende até do idioma e do sotaque com que você cresceu.
- Efeito McGurk: o que você vê muda o que você ouve. A imagem de uma boca dizendo "ga" faz o som de "ba" virar "da" na sua cabeça. É o primo do fenômeno que mostramos no post O que você ouve muda o que você vê, só que na direção contrária.
- Palavras fantasma: sons repetidos e ambíguos em loop fazem o cérebro "ouvir" palavras que não estão lá, montadas pela sua expectativa.
Por que isso tem a ver com a sua marca?
O que a neurociência já sabe sobre isso?
As pesquisas da neurociência mostram, cada vez mais, que o som não é apenas algo que ouvimos: é processado diretamente em áreas do cérebro ligadas à emoção, à atenção e, muito importante, à dor. Certas frequências e padrões sonoros podem reduzir não apenas a percepção de desconforto físico ao modular a atividade do sistema nervoso, mas funcionam como um tipo de "analgésico natural". Estudos recentes indicam que o "som certo" diminui mesmo, em todas as faixas etárias, a ativação do estresse no corpo, reduzindo níveis de cortisol, conhecido como o hormônio do estresse e grande causador de burnout, e promovendo uma sensação de segurança e bem estar.
Além disso, o ambiente sonoro influencia diretamente o nível da energia ativada e que circula na corrente sanguínea do corpo das pessoas, e muda a interação em um espaço. Sons muito caóticos ou intensos aumentam a sobrecarga cognitiva e o cansaço mental, por exemplo, e você pode nem saber que isso está acontecendo no seu espaço. A experiência sonora bem planejada ajuda o cérebro (e a fisiologia do corpo) a regular e manter um ritmo mais equilibrado de funcionamento. Para empresas, isso significa que o som pode ser usado de forma estratégica: não só para tornar o ambiente mais agradável, mas para melhorar a experiência de forma completa.
Caroline Baldasso · para a Strategic Sound Solutions
É esse o princípio por trás do método Cognitive Sound Optimization® da Strategic Sound Solutions: usar a psicoacústica que Hollywood usa para gerar tensão, mas a serviço do contrário, relaxamento, foco, conforto e permanência, em projetos como o da Nubank e o da Premier Pet.
O som da sua empresa e do seu espaço é feito para as pessoas?
A SSS ajuda você a descobrir o que o som do seu espaço está fazendo com o seu público, o tipo de experiência que está criando. Se um tom senoidal em loop consegue segurar uma plateia inteira na ponta da cadeira por duas horas, imagine o que o som do seu ambiente faz com o seu cliente todos os dias, a favor ou contra você. Por isso, nossos projetos têm pesquisa de ponta envolvida, do início ao fim.
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Strategic Sound Solutions · Ciência do som aplicada à experiência de marca
Referências
- Shepard, R. N. (1964). Circularity in Judgments of Relative Pitch. The Journal of the Acoustical Society of America, 36(12), 2346–2353. doi.org/10.1121/1.1919362
- Variety (2026). The Sound of "The Odyssey": Composer Ludwig Göransson Used Ancient Greek Instruments, Scrap Metals and Gongs. variety.com
- Rolling Stone (2026). How Ludwig Göransson Found Ancient Greek Instruments for "The Odyssey". rollingstone.com
- Nolan sobre Dunkirk e o princípio do Shepard tone na estrutura do roteiro. Business Insider (2017). businessinsider.com
- Deutsch, D. (1986). A musical paradox. Music Perception, 3(3), 275–280. Sobre o paradoxo do trítono. doi.org/10.2307/40285337