Um hospital é projetado para cuidar. Mas o cérebro de quem está internado não para de monitorar o ambiente só porque está em um hospital.
Pensa por alguns segundos no que uma pessoa hospitalizada pode estar ouvindo.
Alarmes de monitores. Bombas de infusão. Carrinhos passando pelo corredor. Portas abrindo e fechando. Conversas entre profissionais. Outros pacientes passando mal. Sistemas de ventilação. Telefones. Equipamentos. Vozes durante a madrugada.
É neste ambiente sonoro que muitas pessoas precisam se recuperar dos maiores traumas da vida.
Gravação de ambiente hospitalar. Ouça com fones, em volume confortável.
Separadamente, muitos desses sons parecem insignificantes. Juntos, eles formam uma paisagem sonora que o cérebro precisa interpretar durante praticamente todo o tempo em que aquele paciente está internado.
E esse trabalho de interpretação não tem pausa. Acontece durante o exame, durante a visita, durante o procedimento e durante a madrugada.
Hospitais são muito mais barulhentos do que deveriam
A Organização Mundial da Saúde recomenda que o nível sonoro não exceda cerca de 35 dB LAeq na maioria das salas em que pacientes estão sendo tratados ou observados. Para quartos de internação, a recomendação histórica é ainda mais restritiva: em torno de 30 dB LAeq, com valores mais baixos durante os períodos destinados ao sono.
Na prática, estamos muito longe disso.
Uma revisão sistemática publicada em 2026, que analisou 72 estudos realizados em hospitais, encontrou níveis na faixa de aproximadamente 61 a 66 dB em UTIs e em torno de 63 dB em unidades de internação. Alarmes de equipamentos médicos e conversas entre pacientes e profissionais apareceram entre as fontes mais frequentes de ruído.
Outra revisão de medições hospitalares encontrou valores diurnos variando de 37 a 88,6 dBA e valores noturnos entre 38,7 e 68,8 dBA.
Mas existe uma questão ainda mais interessante. Medir decibéis não conta toda a história.
O ouvido não é um decibelímetro
Duas salas podem apresentar praticamente o mesmo nível médio de pressão sonora e ainda assim provocar experiências completamente diferentes.
Um sistema de ventilação relativamente constante pode desaparecer perceptivamente depois de alguns minutos. Já um alarme curto, agudo e imprevisível pode capturar imediatamente a atenção. Uma conversa compreensível acontecendo atrás de uma cortina pode ser muito mais perturbadora do que um ruído contínuo com intensidade sonora maior.
É aí que acústica e psicoacústica começam a se separar.
A acústica mede o fenômeno físico. A psicoacústica tenta entender como aquele fenômeno é percebido e interpretado pelo ser humano.
Volume importa. Mas também importam frequência, duração, repetição, contraste, inteligibilidade, previsibilidade, localização, significado e contexto. Principalmente o contexto.
O mesmo beep que é apenas um som eletrônico para alguém caminhando por um corredor pode significar outra coisa completamente diferente para um paciente deitado em uma UTI.
O cérebro não processa apenas energia acústica. Ele tenta descobrir:
O que é isso? De onde veio? É importante? Preciso prestar atenção? Existe alguma ameaça?
E o paciente já está em uma situação de vulnerabilidade
Esse detalhe muda tudo.
Uma pessoa internada pode estar com dor, ansiosa, medicada, debilitada, privada de sono, desorientada ou aguardando informações importantes sobre sua saúde.
Ou seja, o som não chega a um cérebro em condições neutras. Ele chega a um sistema que pode já estar submetido a uma carga fisiológica e cognitiva significativa.
Por isso, quando pensamos em som hospitalar, talvez a pergunta não devesse ser apenas “quantos decibéis existem nessa sala?”, mas também “o que o cérebro dessa pessoa precisa processar durante as próximas seis horas?”
Essa mudança de pergunta é uma das bases da psicoacústica aplicada à saúde.
Dormir dentro de um hospital é surpreendentemente difícil
O sono é um dos exemplos mais claros.
Uma revisão sistemática com meta-análise que reuniu 229 estudos sobre sono durante internações identificou ruído, luz, interrupções relacionadas aos cuidados, dor e ansiedade entre os fatores mais comumente associados à pior qualidade do sono de pacientes hospitalizados.
Em ambientes críticos, a questão pode ser ainda mais relevante. Revisões da literatura relacionam o ambiente sensorial das unidades de cuidados intensivos a alterações de sono, estresse, comunicação e delirium, embora a qualidade e o desenho dos estudos ainda variem bastante.
Isso não significa que exista um “som terapêutico” capaz de solucionar isoladamente esses problemas. Seria cientificamente irresponsável afirmar isso.
Significa que o ambiente sonoro é uma variável do ambiente de cuidado e não deveria ser tratado como algo irrelevante.
O paradoxo dos alarmes
Existe outro problema particularmente interessante nos hospitais. Os alarmes são necessários. Eles existem justamente porque algumas informações não podem passar despercebidas.
O problema começa quando praticamente tudo tenta chamar atenção ao mesmo tempo.
A exposição repetida a alarmes frequentes, principalmente quando muitos deles não demandam uma ação imediata, pode contribuir para um fenômeno conhecido como alarm fatigue. Uma revisão de escopo publicada em 2025 descreve a alarm fatigue como um processo associado à exposição repetitiva a alarmes, à sobrecarga sensorial e à redução progressiva da responsividade dos profissionais. A literatura também associa o fenômeno a estresse, burnout, atrasos de resposta e dificuldades de comunicação.
Na psicoacústica, isso faz enorme diferença. Não basta perguntar se um sinal é audível. Precisamos perguntar se ele é distinguível, compreensível e relevante dentro do ambiente em que está inserido.
O som também afeta quem está cuidando
Existe uma tendência natural de discutir acústica hospitalar apenas pela perspectiva do paciente. Mas médicos, enfermeiros, técnicos e outros profissionais podem permanecer dentro desse ambiente durante turnos inteiros.
Alarmes. Conversas simultâneas. Equipamentos. Chamadas. Interrupções. Informações clínicas que precisam ser compreendidas corretamente.
Revisões sobre exposição sonora ocupacional em ambientes de saúde relacionam o ruído a estresse, fadiga, dificuldades de concentração, menor satisfação profissional e alarm fatigue. Os próprios autores destacam, entretanto, que ainda são necessários mais estudos de intervenção para determinar quais estratégias produzem os melhores resultados em cada contexto.
Aqui aparece outra diferença importante entre simplesmente reduzir ruído e realmente projetar um ambiente sonoro.
Uma enfermaria não pode ficar muda. Uma UTI não pode eliminar alarmes. Profissionais precisam conversar. Equipamentos precisam funcionar. Pacientes precisam chamar a equipe.
O objetivo não é silêncio absoluto.
Um hospital precisa soar funcional
Quando alguém fala em melhorar a acústica de um hospital, a primeira reação costuma ser pensar em materiais absorventes. Eles são importantes. Mas o problema é maior.
Precisamos pensar simultaneamente em arquitetura, materiais, equipamentos, alarmes, comportamento, comunicação, privacidade e percepção. Revisões recentes sobre ruído hospitalar dividem as estratégias encontradas na literatura entre medidas físicas, gerenciais e culturais.
É justamente por isso que apenas instalar alguns painéis acústicos pode não resolver o problema. Uma sala pode apresentar menor reverberação e continuar sendo cognitivamente agressiva. Da mesma forma, um ambiente pode ficar mais silencioso e tornar conversas privadas ainda mais perceptíveis.
Em saúde, silêncio e privacidade não são necessariamente a mesma coisa. E reduzir o nível médio de ruído não garante automaticamente melhor inteligibilidade da fala, menor distração ou maior conforto.
O objetivo precisa ser funcional.
Da acústica hospitalar para a psicoacústica hospitalar
É nesse ponto que a discussão começa a ficar mais interessante.
Em vez de pensar apenas em sons que precisam ser eliminados, podemos começar a mapear qual função cada som exerce naquele ambiente.
Alguns carregam informação clínica e precisam ser percebidos na hora. Outros não deveriam ser compreendidos à distância. E outros existem apenas porque ninguém nunca parou para pensar neles.
Isso muda completamente a abordagem. O ambiente deixa de ser avaliado apenas em termos de “barulho” e passa a ser analisado por aquilo que ele provoca em quem está ali.
É a diferença entre medir quanto som existe e tentar compreender o que aquele som está fazendo com as pessoas.
Ciência do som aplicada ao cuidado
Na Strategic Sound Solutions, esse é um dos campos que estamos desenvolvendo através do Cognitive Sound Optimization®, nossa metodologia proprietária de inteligência sonora e psicoacústica aplicada.
A lógica não é colocar música dentro de um hospital. Também não é criar um aplicativo de relaxamento. O trabalho começa muito antes de qualquer solução: começa por entender o que aquele ambiente específico está fazendo com as pessoas que passam por ele.
Não existe resposta universal. Uma sala de infusão, uma UTI, um consultório e uma recepção não têm a mesma função cognitiva nem a mesma exigência acústica. Cada projeto parte do diagnóstico daquele lugar, com aquelas pessoas.
E existe uma palavra fundamental: validar
Existe muito entusiasmo em torno de neurociência, wellness e ambientes sensoriais. Mas saúde exige uma responsabilidade diferente.
Não basta alguém entrar em uma sala e dizer que “parece mais tranquila”. Precisamos medir. Comparar antes e depois. Observar indicadores acústicos. Entender a percepção de pacientes e equipes. Avaliar adesão. E, quando uma hipótese envolver um resultado clínico, ela precisa ser testada como hipótese clínica.
A ciência existente já nos dá razões suficientes para levar o ambiente sonoro hospitalar a sério. Mas isso não significa transformar correlações em promessas. A evolução desse campo depende justamente de sair do discurso subjetivo e construir evidência.
Talvez o som seja uma parte invisível da arquitetura do cuidado
Hospitais investem enormes recursos em equipamentos, protocolos, iluminação, arquitetura, tecnologia e experiência do paciente. Curiosamente, uma das primeiras informações que nosso cérebro recebe sobre um ambiente continua sendo frequentemente tratada como consequência inevitável dele.
O som.
Durante anos, nossa relação com acústica hospitalar foi baseada principalmente em uma pergunta: como fazemos menos barulho?
Talvez a próxima pergunta seja mais poderosa: como deveria soar um ambiente projetado para cuidar de seres humanos?
Porque um hospital não precisa apenas funcionar corretamente. Para quem está vulnerável, esperando, tratando, cuidando ou tentando dormir, ele também precisa soar como um lugar seguro para estar.
E isso é uma questão de ciência. Não de gosto.
Se esse tema toca o ambiente onde você trabalha, o primeiro passo é sempre o mesmo: entender o que ele está comunicando hoje.
Conversar sobre um projetoReferências
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André Di Napoli
Strategic Sound Solutions
Ciência do som aplicada a ambientes, marcas e saúde.