O clique do teclado ao lado. A descarga do banheiro. O ar-condicionado. A voz de alguém falando um pouco mais alto. Para a maioria das pessoas, tudo isso é ruído de fundo. Para outras, é um ataque.
Não é exagero. Não é implicância. Sons que o resto do mundo mal percebe podem soar altos demais, incômodos demais e, em alguns casos, literalmente doloridos.
Esse fenômeno tem nome: hiperacusia.
E se você já leu nosso texto sobre misofonia, prepare-se: as duas coisas são parentes próximas, mas não são a mesma coisa. Vamos separar isso com cuidado.
O que é hiperacusia?
Hiperacusia é uma tolerância reduzida a sons comuns: sons de intensidade moderada que não incomodam a maioria das pessoas, mas que para quem tem a condição soam altos, invasivos ou até dolorosos.
A palavra-chave aqui é intensidade física. Na hiperacusia, o problema está no volume percebido: o cérebro trata um som de nível normal como se fosse muito mais forte do que ele realmente é.
É importante uma ressalva honesta: a hiperacusia ainda não tem um marcador objetivo consolidado, e até a sua definição é objeto de debate científico. As estimativas de prevalência variam bastante (de menos de 1% a mais de 15% da população geral, dependendo do critério e do método usados), com números mais altos em adolescentes, idosos e mulheres, e em pessoas com perda auditiva, zumbido ou autismo.
Os quatro rostos da hiperacusia
A literatura costuma descrever a hiperacusia em quatro formas, que podem aparecer juntas:
- De volume (loudness): sons moderados são percebidos como altos demais.
- De dor (noxacusis): o som gera desconforto físico real, uma pontada ou ardência no ouvido.
- De incômodo (annoyance): irritação desproporcional diante de certos sons.
- De medo (fear): antecipação ansiosa e evitação de ambientes por causa do som.
O que acontece no cérebro?
A explicação está na psicoacústica e na neurociência auditiva, o estudo de como o cérebro percebe, filtra e interpreta o som.
A hipótese hoje mais discutida é a do ganho central (central gain): quando a entrada sonora diminui ou se desregula, o sistema auditivo central "aumenta o próprio volume" para compensar, como um amplificador com o ganho girado além do necessário. O resultado é que sons normais passam a ser processados como intensos, e áreas ligadas à emoção e ao alerta, como a amígdala e o sistema nervoso autônomo, entram em cena. Vale marcar: esse é um mecanismo proposto, sustentado por evidência, mas ainda não fechado.
Ou seja: o cérebro está tentando proteger a pessoa. Só que, calibrado dessa forma, ele transforma o cotidiano sonoro em uma fonte constante de estresse.
Hiperacusia e misofonia: qual é a relação?
Aqui está o ponto que conecta os dois textos. Muita gente confunde, e faz sentido, porque as duas fazem parte de um mesmo guarda-chuva que os pesquisadores chamam de tolerância reduzida ao som (decreased sound tolerance). Junto delas costuma andar também o zumbido (tinnitus).
A diferença central é o que dispara a reação:
- Hiperacusia reage à intensidade física do som. Qualquer som acima de certo nível incomoda, independentemente do que ele seja. A emoção predominante tende a ser o medo.
- Misofonia reage ao significado e ao padrão do som: mastigar, fungar, clicar caneta. O volume é secundário; o que pesa é o contexto e a associação emocional. A emoção predominante tende a ser a raiva.
Na prática, elas coexistem com frequência. Estudos com adultos jovens observaram co-ocorrência substancial entre as duas: quanto mais severa a misofonia, maior a chance de haver também hiperacusia associada. Mas a relação não é automática: em algumas populações (como pacientes com zumbido) essa correlação não aparece, e há evidências de que os dois quadros envolvem mecanismos distintos. Em resumo: são primos que frequentam a mesma casa, não gêmeos.
Ela raramente vem sozinha
A hiperacusia costuma andar acompanhada. A grande maioria dos adultos com hiperacusia também convive com zumbido, e cerca de 60% dos pacientes com zumbido apresentam algum grau de tolerância reduzida ao som. Quadros de ansiedade e depressão também aparecem com frequência elevada, embora os números variem muito entre estudos e devam ser lidos com cautela.
A boa notícia: existe caminho. As abordagens com melhor evidência hoje combinam terapia cognitivo-comportamental (TCC), psicoeducação e terapia sonora / de reexposição gradual. Nenhuma é bala de prata, e a resposta varia de pessoa para pessoa, mas o quadro é tratável, e o primeiro passo é parar de tratá-lo como "frescura".
E o que isso tem a ver com marcas e ambientes?
Tudo.
Quando uma marca projeta um espaço, um app ou uma comunicação sonora pensando apenas no ouvinte "médio", ela ignora uma parcela real do público que sente o som de forma amplificada. E essa parcela não é pequena.
Um ambiente de loja com refrigeração ruidosa, um restaurante com acústica dura e reverberante, uma notificação estridente, um som de espera agressivo no telefone: tudo isso pode ser apenas irritante para uns, mas francamente insuportável para quem tem hiperacusia. E o cliente que sai desconfortável raramente sabe explicar por quê. Ele só não volta.
Som que acolhe é som que fideliza
Projetar para quem tem sensibilidade auditiva não é abrir mão de identidade sonora: é ganhar precisão. Controlar níveis de pressão sonora, suavizar transientes agressivos, tratar a reverberação de um espaço e desenhar sons de interface confortáveis torna a experiência melhor para todos, não só para os mais sensíveis.
É exatamente esse o trabalho da Strategic Sound Solutions. Através do nosso método Cognitive Sound Optimization®, unimos psicoacústica, medição acústica e estratégia de marca para calibrar o som de ambientes, produtos e experiências, de forma que ele trabalhe a favor do cérebro do seu público, e não contra ele.
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Se o som da sua marca ainda não foi pensado com base na forma como o cérebro humano realmente percebe o mundo, é provável que você esteja perdendo atenção, conforto e clientes, sem saber o motivo.
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andre@ssslab.com.br
Strategic Sound Solutions · Ciência do som aplicada à experiência de marca
Referências
- Ren, J. et al. (2021). Prevalence of Hyperacusis in the General and Special Populations: A Scoping Review. Frontiers in Neurology, 12, 706555. doi.org/10.3389/fneur.2021.706555
- Jastreboff, P. J., & Jastreboff, M. M. (2014). Treatments for Decreased Sound Tolerance (Hyperacusis and Misophonia). Seminars in Hearing, 35(2), 105–120. doi.org/10.1055/s-0034-1372527
- Estudos sobre mecanismos dissociáveis de hiperacusia e misofonia. International Journal of Audiology (2024). doi.org/10.1080/14992027.2024.2419558
- Rodrigues, A. L. M., & Aazh, H. (2025). Psychiatric Comorbidities in Hyperacusis and Misophonia: A Systematic Review. Audiology Research, 15(4), 101. doi.org/10.3390/audiolres15040101
- Aazh, H. et al. Cognitive Behavioural Therapy for Managing Tinnitus, Hyperacusis, and Misophonia (2025 Tonndorf Lecture). PMC12109689. ncbi.nlm.nih.gov